
Morando em Lauro de Freitas desde 2020, a venezuelana Vilmarys del Carmen Maza Díaz comemora a notícia da queda do regime de Nicolás Maduro, ditador que governou a Venezuela por 13 anos. Ao lado do marido e de dois filhos, ela acompanha os desdobramentos à distância, com esperança, mas também com cautela. "A gente esperou tanto por esse momento", diz venezuelana sobre queda de Maduro
Para ela, apesar dos interesses políticos envolvidos no processo, a mudança representa um alívio para quem viveu os efeitos diretos da ditadura. “Claro que sabemos que nada acontece sem interesses, mas, mesmo assim, o que está acontecendo é maravilhoso. A gente esperou por isso há muitos anos.”
Vilmarys conta que amigos e familiares que permanecem na Venezuela ainda vivem com medo. Segundo ela, mesmo com a mudança de regime em curso, a estrutura estatal construída ao longo de anos não desaparece de um dia para o outro.
Os Estados Unidos atacaram a Venezuela, no último sábado (3), e prenderam Nicolás Maduro, conforme anuncio do presidente norte-americano Donald Trump. Apesar disso, o processo de mudança ainda é complexo, como indica Vilmarys.
"Tiraram a cabeça, mas ainda tem todo um corpo. Existe uma estrutura aparelhada que precisa ser desmontada”, explica. Ela relata que, enquanto a entrevista acontecia, chegavam notícias sobre a libertação de presos políticos e o início do desmonte de centros de detenção, como o Helicoide, símbolo da repressão no país.
“As pessoas que estão lá sabem que não é fácil. Por isso dizem para quem está fora falar por elas, porque lá não podem filmar, não podem mostrar. Quem está lá ainda vive com medo”, diz.
Para Vilmarys, o país precisará ser reconstruído praticamente do zero. “Meu país está muito desestruturado agora. Vai precisar de uma reestruturação completa.”
Antes de vir para o Brasil, Vilmarys era professora na Venezuela e trabalhava vinculada ao Ministério da Educação. Segundo ela, foi alvo de perseguição por não aceitar apoiar o governo.
“Eu fui pressionada a apoiar o regime. Quando me neguei, começaram a me pressionar para pedir demissão. Diziam: ‘se você não está comprometida com a revolução, você não serve para nós’”, relata.
Com 14 anos de sala de aula e formação na área, ela afirma que não teve escolha. “Foi muito duro. Eu estudei, me preparei para ser professora, e mesmo assim fui afastada por não concordar politicamente. Como a minha história, existem muitas outras.”
Ela reforça que ninguém deixa seu país com a família sem um motivo grave. “Quem sai assim, sai por medo. Não é por nada.”
Para Vilmarys, a queda do regime representa o início de um longo processo.
“Quem diz ‘você está festejando, mas não sabe o que vem agora’, não tem noção do que é viver numa ditadura. O que vier, dificilmente será pior do que o que a gente já passou.”
A família chegou ao Brasil em 2020, em plena pandemia da Covid-19. Primeiro, passaram por Boa Vista, em Roraima, principal porta de entrada de venezuelanos no país.
“Era uma cidade muito pequena para receber tanta gente. Tivemos apoio da ONU, de organizações internacionais, dos Estados Unidos e também do governo brasileiro, que ajudou a redistribuir as famílias para outros estados”, conta.
Segundo ela, os programas de acolhimento ofereceram auxílio-aluguel por três meses e encaminhamento para empregos. O marido chegou a trabalhar nos Correios, assim como outros imigrantes. Também receberam cestas básicas e apoio de igrejas, especialmente da Igreja Católica.
“Isso durou cerca de um ano, um ano e meio. Depois disso, tivemos que caminhar com nossas próprias pernas. Eu chorei muito, mas sempre encontrei muita humanidade no trato das pessoas. Não tenho do que reclamar.”
Hoje, segundo ela, cerca de 400 famílias venezuelanas vivem entre Salvador e Lauro de Freitas, desde 2017. Ainda assim, grande parte da família de Vilmarys permanece na Venezuela.
“Eu sinto como se estivesse há cinco anos sem lar. A maioria da minha família continua lá. A gente quer voltar, mas sabe que ainda não está totalmente seguro. Agora, pelo menos, existe um sonho mais próximo.”
Apesar do acolhimento inicial, Vilmarys destaca a falta de políticas públicas contínuas para imigrantes em Lauro de Freitas. Ela lembra que chegou a existir um CRAS voltado para atendimento de imigrantes, aberto em 2021, mas que foi fechado posteriormente.
“A gente pediu muito por esse CRAS, ele foi aberto, mas depois fechou. Hoje não temos mais esse apoio institucional. Foi muito triste, porque precisamos desse suporte, embora a gente saiba que o país também tem muitas dificuldades.”
Ela também aponta o desemprego como um dos principais motivos que levam venezuelanos a deixarem a Bahia em busca de outras regiões do país.
“Muitos amigos meus já saíram daqui, principalmente por causa do desemprego. Para o imigrante, isso é ainda mais difícil.”
Na capital, ela destaca iniciativas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), como projetos coordenados por professores que oferecem cursos e apoio aos imigrantes. Já em Lauro de Freitas, segundo ela, esse tipo de suporte é quase inexistente.
“Aqui a gente se apoia entre nós mesmos, compartilhando vagas de emprego, se ajudando como pode.”